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Há aproximadamente 2 anos eu e a minha companheira Juliana, decidimos escrever nosso primeiro projeto fotográfico juntos.

No inicio achávamos que seria apenas uma tentativa. Eu ainda me sentia inseguro, e pensava como seria ir pras ruas sozinho em busca do desconhecido. 

Acontece que nunca sabemos o que o futuro nos reserva, e isso de certa forma torna tudo mais desafiador e emocionante em nossa trajetória.

Nesses dois anos do projeto ” Quem dorme na rua passa o dia de pijama” percebi algo que ia além de fotografar moradores de rua, era a minha experiência de Vida com essas pessoas. Conhecer um pouco dessa realidade me fez enxergar quem eu sou, porque estou aqui e onde pretendo chegar. 

Parece engraçado, sempre ouvi dizer que na rua só se aprende o que não presta, o que não faz mais sentido pra mim.

Entre erros e acertos, nada foi de mão beijada. Escrever um projeto e fazer com que ele tenha vida  é preciso estar aberto a novas experiências, novos desafios.

A cada retrato feito, a cada história contada, a cada montagem um sonho foi se construindo.

Mas nem tudo é glamour, num país onde a cultura só é bem estruturada para aqueles que já tem o seu espaço no mercado ou na mídia. 

Aqueles artistas que trilham seus primeiros passos, precisam  implorar por um espaço que nos é de direito. Pólos culturais que dificultam qualquer atividade em espaços que em muitas vezes encontram-se abandonados.

Desrespeito não só ao artista, mas a sua obra.

Não pensávamos em mudar o mundo com o projeto, mas sim aproximar as pessoas de outras realidades que estão diante dos nossos olhos em nosso dia a dia. Respeitar mais, sem indiferença. E que muitas vezes um sorriso ou uma conversa pode valer muito mais que uma esmola.

Deixo aqui minha enorme gratidão a todos os moradores que foram retratados durante esse tempo, obrigado por me deixarem mostrar um pouco sobre vocês. 

Quero agradecer também a todos que foram as exposições, e deixaram suas mensagens, crítica ou elogio.

Obrigado a todos que me ajudaram de alguma forma para que esse trabalho fosse construído, em especial Juliana dos Santos.

 

Durante as últimas semanas tenho fotografado menos e me dedicado mais a seleção e edição das fotos que farão parte da exposição itinerante “Quem dorme na rua passa o dia de pijama” que terá início na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Mas sempre que posso, carrego a câmera na mochila disposto a conhecer alguém e fazer uns cliques. E foi o que rolou na semana passada, conheci um morador do centro, ali no Vale do Anhangabaú.

Me aproximei assim que o vi, e logo ele se identificou como “O Príncipe Inglês”, e em seguida disse que se chamava Carlos. 
Bem humorado, disse pouco sobre si mas deixou que eu o fotografasse e quando viu algumas das fotos que tirei, se emocionou ao se ver o seu retrato no lcd da câmera.

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Passageiro residente.

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Algumas vezes passando pelo terminal rodoviário da Barra Funda, via um morador que sempre estava sentado em um banco, com uma manta sobre a cabeça e uma sacola ao lado.

Cheguei a fotografá-lo no ano passado com um celular, mas não me aproximei com receio de incomodá-lo.

Até que novamente passando por lá o encontro sentado e só. Aproximei-me e sentei em um banco um pouco distante. Fiquei alguns minutos observando seu comportamento e finalmente decidi abordá-lo.

No início se apresentou apenas como Pereira, mas só depois de alguns minutos descubro seu primeiro nome, José.

Tinha apenas sete anos quando sua mãe morreu, e logo após a sua morte veio de Jaú, município localizado na região central do estado, morar em abrigos na capital paulista.

Depois de adulto morou no bairro da Penha, Mooca e Brás. E há aproximadamente três anos mora nas ruas, atualmente no terminal rodoviário Barra Funda.

Sobre como veio parar em um dos terminais mais movimentados da cidade, disse ter sido abandonado por sua esposa, filho e sogra.

Zé Pereira é eletricista aposentado, e durante a conversa diz não pedir nada pra ninguém.

-Se eu quiser tomar um café agora, não tenho um tostão no bolso.

-Não vou tomar café.

Enquanto conversávamos, não demorou muito para que ele expressasse sua opinião sobre a politica do nosso país.

-O governo está encarando uma politica nojenta no Brasil, na época de Getúlio Vargas era melhor.

Falamos um pouco sobre as recentes manifestações ocorridas no nosso país, onde ele diz ser contra o ato.

E antes de terminarmos a conversa, ele me mostrou algumas fotos 3×4 que tirou recentemente para documento de identidade.

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Num dos dias que sai para fotografar durante

Num dos dias que sai para fotografar durante essa semana, encontrei um morador que eu já havia visto algumas vezes, mas não tinha feito nenhum tipo de abordagem. Desta vez quase deixei passar, mas tomei coragem e me apresentei.

Marciano é o seu nome, e disse que foi escolhido por uma tia.

Nascido no Paraná (PR), diz ser descendente de alemão com africano. Marciano tem os olhos claros e a barba loira.

Veio para São Paulo ainda com poucos anos, diz ter decidido ir pras ruas e desde então vive em alguns pontos da cidade.

Marciano caminha devagar. Ele disse que sofreu acidente recentemente. No rosto ainda está com um machucado grande em recuperação.

Quando me identifico como estudante de fotografia, pergunto se lhe interessa ver meu trabalho através de umas fotos que eu carregava na mochila. Ele disse que preferia não ver, que lhe faria lembrar-se dos amigos que já perdeu ao longo dos anos.

De forma natural, Marciano fazia e respondia todas as perguntas, e me perguntou qual era o sistema operacional que eu usava, e falou um pouco sobre Linux.

Durante nossa conversa ele topou fazermos alguns retratos. Perguntei a ele se podia me acompanhar até um local mais iluminado próximo de onde estávamos.

Essa é uma das fotos que tirei naquele dia.

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Semana passada voltei a fotografar para o “Quem

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Semana passada voltei a fotografar para o “Quem dorme na rua passa o dia de pijama”, depois de um pouco mais de 6 meses sem ir pras ruas com esse propósito.

Comecei a mapear alguns pontos perto de onde eu moro, pretendo conhecer esses moradores de bairros menores. E para a minha surpresa encontrei uma moradora a poucos quarteirões da minha casa.

Me aproximo após notar que ela está disposta a conversar comigo. Logo em seguida me apresento e ela faz o mesmo.

-Lucia, disse em voz baixa.

Já estávamos conversando e Lucia se sentiu a vontade para falar um pouco sobre sua vida.

Aos 41 anos diz ser moradora de rua por opção. Conta que num certo dia arrumou o que podia levar e saiu sem rumo.

Por morar muitos anos no mesmo bairro, localizado no extremo leste da capital, Lucia cumprimentava diversas pessoas que passam por nós, o que fica claro que ela é tratada de forma inclusiva dentro do convívio social entre os moradores do bairro.

Conversamos sobre bastante coisa, expliquei a ela sobre o projeto e Lucia aceitou de primeira fazer umas fotos enquanto me contava mais sobre si.

Falou sobre o acidente que sofreu já há algum tempo, onde fraturou algumas partes do corpo. Uma delas foi o joelho direito, onde agora possui alguns pinos. Ao falar sobre o assunto de forma descontraída Lucia relata os choques que leva por ficar em frente a portões de aço.

Seu companheiro Gileno chega logo em seguida, nos cumprimenta e se senta ao lado de Lucia. Não demorou muito tempo pra que ele também aceitasse fazer parte dos cliques.

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Empolgada com as fotos, Lucia me  pede um retrato com seu amigo Marcelo.

Alegria

Resolvi escrever o ultimo post do ano e quero dedica-lo a uma pessoa que conheci em uma de minhas caminhadas durante esses meses. Nesse dia resolvi andar pelo centro, com o intuito de conhecer novos moradores e rever alguns deles que eu já conhecia e sabia onde encontra-los.

Penso milhares de vezes antes de abordar um morador, caminho andando para eles esperando alguma reação, um olhar, um resmungo, um sorriso ou qualquer atitude que permita que eu me aproxime. E foi assim que aconteceu, ele me viu, mas passei direto, voltando logo em seguida. Esse é o Alegria, foi assim que ele se identificou quando perguntei o seu nome. Muito simpático, diferente e com um chapéu feito da palha do coco, ele estava preparando sua refeição, um peixe que tinha ganhado. Ele me mostrou como fazia para cozinhá-lo, embebendo uma faca em uma latinha com álcool e depois encostando o isqueiro na faca e levando ela perto da lata de novo para incendiá-la. Alegria é capoeirista e fez uma demonstração das tantas artes que conhece. Conversou comigo sobre religião, sobre o significado do meu nome e sobre artesanato. Enquanto isso rolava uma briga entre moradores ali perto, o que me deixou meio receoso, confesso, mas a tranquilidade e a serenidade do Alegria me deixou relaxado. O que mais me impressionou em toda aquela vivência desse dia foi quando ele me mostrou duas câmeras fotográficas antigas, que ele tinha, e de todo o bom coração me pediu para escolher uma. Eu peguei uma todo sem jeito, mas com a maior felicidade, afinal é a primeira câmera que eu ganhei na vida. Deixar para falar sobre o Alegria neste último dia de 2012 e depois das exposições terem acontecido e todas com recepções muito positivas é para sobretudo agradecer a essas pessoas, ainda que elas não possam ter acesso as minhas palavras, pois aprendi e cresci muito com todo esse projeto, aprendi melhor o significado das palavras GENEROSIDADE e RESPEITO e venho desejar que não só o ano que está por vir, mas a todos os demais anos que não só a mim mas a todos, possam querer a respeitar, ainda que seja o mínimo essas pessoas. Eu acho que isso já é um grande passo na mudança de nossa sociedade, na sua evolução como seres humanos.

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Esse é o Alexa…

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Esse é o Alexandre, amigo de um dos colaboradores do projeto “Paulo”, ele vive no centro de São Paulo, e apesar de ter gostado da ideia de ser retratado, ele não se sentiu a vontade em dizer sobre si mesmo.

 

 Após andar p…

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Após andar por toda Avenida Paulista em ambas as calçadas, de ponta a ponta a procura de mais um dia de novas histórias e novos retratos me deparei com José Aparecido, quando já estava desesperançoso e desanimado. Ele se encontrava sentado à sombra, perto do Parque do Trianon. Muito acolhedor, dos olhos pequenos e simpáticos, logo topou a ideia de ser fotografado e me revelou a curiosa história de que um fotógrafo norueguês já havia lhe retratado em meados de 1994 e exposto na Noruega “Eu tirei uma sozinho e outra com dois moradores!” conta, orgulhoso. Muito conhecedor das palavras de Deus, comentou que meu nome é bíblico, um dos apóstolos do senhor.

Com seus 67 anos de idade, explicou que morava em uma favela no período em que Jânio Quadros era prefeito, mas que ele, bem como muitos moradores tiveram que se retirar. Ele explicou que Jânio prometeu um lar novo para todos eles e cumpriu, boa parte. Mas que quando chegou justamente na sua vez, a grana “acabou”. Sem ter para onde ir, foi viver nas ruas.

“Seu” José ganhou um marmitex da lanchonete perto dali. “Alguém pagou e mandou me trazer”, disse, tímido. Conversou comigo ainda sobre galerias de arte da Itália, sobre Nero, o imperador romano que apesar de sua má fama, segundo ele, fez grandes feitos. Ainda me orientou de como abordar os moradores e sugeriu também que eu vá fotografar a região da Cracolândia ” Mas toma cuidado, já não chega com a câmera na mão nem nada. Lá tem que ter uma abordagem diferente.”

Fiquei surpreso com a educação, a religiosidade e o conhecimento dele. Preferi ouvir todas as belas palavras sobre o que ele gostava de dizer, empolgado e com brilho nos olhos, notei que ele não se sentia a vontade de falar sobre si mesmo. Quando questionado sobre a aliança sem seu dedo ele desconversou “Sou noivo das palavras de Cristo.”

Percebi que poderia ficar por horas ouvindo suas histórias, que ele talvez há muito tempo não tenha tido oportunidade de compartilhar. Notei quando estava de partida que sua água estava no fim e neste calor, repus novamente. Ele agradeceu e sem jeito, procurou algo para me oferecer. Fiquei de voltar, para conversarmos mais, saí de lá muito sensibilizado e feliz, e mais uma vez comovido, com uma realidade tão próxima a mim.

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Foto tirada em baixo do viaduto próximo ao mercado da Lapa Zona Oeste de São Paulo.

Graffiti por Plano B.