Nesta última quinta feira, dia 25, foi um dia muito especial  para o projeto Quem dorme na rua passa o dia de pijama. Com a venda dos quadros da exposição de 2012, compramos alguns cobertores que foram distribuídos na Praça da Sé, centro de SP.

Rolou uma vibe muito boa,  e poder fazer parte disso  valeu cada corre.

Agradeço a todos que contribuíram comprando esses quadros, aos que fizeram parte do projeto e aos que admiram o trabalho, vocês fazem parte do sorriso de cada um desses  moradores que me disseram que o frio seria menos doloroso a partir de aquele dia.007

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Há aproximadamente 2 anos eu e a minha companheira Juliana, decidimos escrever nosso primeiro projeto fotográfico juntos.

No inicio achávamos que seria apenas uma tentativa. Eu ainda me sentia inseguro, e pensava como seria ir pras ruas sozinho em busca do desconhecido. 

Acontece que nunca sabemos o que o futuro nos reserva, e isso de certa forma torna tudo mais desafiador e emocionante em nossa trajetória.

Nesses dois anos do projeto ” Quem dorme na rua passa o dia de pijama” percebi algo que ia além de fotografar moradores de rua, era a minha experiência de Vida com essas pessoas. Conhecer um pouco dessa realidade me fez enxergar quem eu sou, porque estou aqui e onde pretendo chegar. 

Parece engraçado, sempre ouvi dizer que na rua só se aprende o que não presta, o que não faz mais sentido pra mim.

Entre erros e acertos, nada foi de mão beijada. Escrever um projeto e fazer com que ele tenha vida  é preciso estar aberto a novas experiências, novos desafios.

A cada retrato feito, a cada história contada, a cada montagem um sonho foi se construindo.

Mas nem tudo é glamour, num país onde a cultura só é bem estruturada para aqueles que já tem o seu espaço no mercado ou na mídia. 

Aqueles artistas que trilham seus primeiros passos, precisam  implorar por um espaço que nos é de direito. Pólos culturais que dificultam qualquer atividade em espaços que em muitas vezes encontram-se abandonados.

Desrespeito não só ao artista, mas a sua obra.

Não pensávamos em mudar o mundo com o projeto, mas sim aproximar as pessoas de outras realidades que estão diante dos nossos olhos em nosso dia a dia. Respeitar mais, sem indiferença. E que muitas vezes um sorriso ou uma conversa pode valer muito mais que uma esmola.

Deixo aqui minha enorme gratidão a todos os moradores que foram retratados durante esse tempo, obrigado por me deixarem mostrar um pouco sobre vocês. 

Quero agradecer também a todos que foram as exposições, e deixaram suas mensagens, crítica ou elogio.

Obrigado a todos que me ajudaram de alguma forma para que esse trabalho fosse construído, em especial Juliana dos Santos.

 

Marciano Felix

Exposição “Quem dorme na rua passa o dia de pijama” (Vai 2013) na Galeria Olido de 16/11 a 02/12.
Avenida São João, 473 Corredor
Térreo, de seg a dom das 10h00 as 21h00.
Grátis!

Exposição “Quem dorme na rua passa o dia de pijama” 2013/2014

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Durante as últimas semanas tenho fotografado menos e me dedicado mais a seleção e edição das fotos que farão parte da exposição itinerante “Quem dorme na rua passa o dia de pijama” que terá início na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Mas sempre que posso, carrego a câmera na mochila disposto a conhecer alguém e fazer uns cliques. E foi o que rolou na semana passada, conheci um morador do centro, ali no Vale do Anhangabaú.

Me aproximei assim que o vi, e logo ele se identificou como “O Príncipe Inglês”, e em seguida disse que se chamava Carlos. 
Bem humorado, disse pouco sobre si mas deixou que eu o fotografasse e quando viu algumas das fotos que tirei, se emocionou ao se ver o seu retrato no lcd da câmera.

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Pedro, a rua e a memória de um bairro

Matéria que saiu essa semana sobre o projeto na Revista Babel muito bem escrita por Leandro Fonseca.

Algumas fotos que eu fiz naquele dia.

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“Seu” Pedro nos contou que sempre foi dado aos desenhos. Nasceu em Itapecerica da Serra e com 4 anos de idade chegou ao Jaçanã. Divorciado, trabalhou durante anos como auxiliar de expedição. Disse que até pouco tempo atrás recebia aposentadoria no qual lhe foi “cortada”.

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Ouvimos ruídos: de uma surrada bolsa, “seu” Pedro retirou um celular gasto de modelo antigo. “É uma mensagem”, disse. Colocou seus óculos e falou que sempre recebia ligações “das amigas”. Também perguntei de onde vinham as correntes de prata e ouro que carregava no pescoço. “Ganhei de um desenhista”. Trajava uma camisa encardida com a frase ‘Alguém que te ama muito trouxe esta camiseta de Fortaleza’.

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Na foto Seu Pedro e meu amigo Leandro Fonseca.

Texto por Leandro Fonseca.

Passageiro residente.

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Algumas vezes passando pelo terminal rodoviário da Barra Funda, via um morador que sempre estava sentado em um banco, com uma manta sobre a cabeça e uma sacola ao lado.

Cheguei a fotografá-lo no ano passado com um celular, mas não me aproximei com receio de incomodá-lo.

Até que novamente passando por lá o encontro sentado e só. Aproximei-me e sentei em um banco um pouco distante. Fiquei alguns minutos observando seu comportamento e finalmente decidi abordá-lo.

No início se apresentou apenas como Pereira, mas só depois de alguns minutos descubro seu primeiro nome, José.

Tinha apenas sete anos quando sua mãe morreu, e logo após a sua morte veio de Jaú, município localizado na região central do estado, morar em abrigos na capital paulista.

Depois de adulto morou no bairro da Penha, Mooca e Brás. E há aproximadamente três anos mora nas ruas, atualmente no terminal rodoviário Barra Funda.

Sobre como veio parar em um dos terminais mais movimentados da cidade, disse ter sido abandonado por sua esposa, filho e sogra.

Zé Pereira é eletricista aposentado, e durante a conversa diz não pedir nada pra ninguém.

-Se eu quiser tomar um café agora, não tenho um tostão no bolso.

-Não vou tomar café.

Enquanto conversávamos, não demorou muito para que ele expressasse sua opinião sobre a politica do nosso país.

-O governo está encarando uma politica nojenta no Brasil, na época de Getúlio Vargas era melhor.

Falamos um pouco sobre as recentes manifestações ocorridas no nosso país, onde ele diz ser contra o ato.

E antes de terminarmos a conversa, ele me mostrou algumas fotos 3×4 que tirou recentemente para documento de identidade.

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Num dos dias que sai para fotografar durante

Num dos dias que sai para fotografar durante essa semana, encontrei um morador que eu já havia visto algumas vezes, mas não tinha feito nenhum tipo de abordagem. Desta vez quase deixei passar, mas tomei coragem e me apresentei.

Marciano é o seu nome, e disse que foi escolhido por uma tia.

Nascido no Paraná (PR), diz ser descendente de alemão com africano. Marciano tem os olhos claros e a barba loira.

Veio para São Paulo ainda com poucos anos, diz ter decidido ir pras ruas e desde então vive em alguns pontos da cidade.

Marciano caminha devagar. Ele disse que sofreu acidente recentemente. No rosto ainda está com um machucado grande em recuperação.

Quando me identifico como estudante de fotografia, pergunto se lhe interessa ver meu trabalho através de umas fotos que eu carregava na mochila. Ele disse que preferia não ver, que lhe faria lembrar-se dos amigos que já perdeu ao longo dos anos.

De forma natural, Marciano fazia e respondia todas as perguntas, e me perguntou qual era o sistema operacional que eu usava, e falou um pouco sobre Linux.

Durante nossa conversa ele topou fazermos alguns retratos. Perguntei a ele se podia me acompanhar até um local mais iluminado próximo de onde estávamos.

Essa é uma das fotos que tirei naquele dia.

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